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Agricultores, pesquisadores e instituições farão relatos de experiências durante Mountains 2018

Uma das atrações do III Workshop sobre Desenvolvimento Sustentável em Ambientes de Montanha – evento que será realizado de 10 a 12 de dezembro, durante o Mountains 2018, em Nova Friburgo, na região serrana do Rio de Janeiro – é a apresentação de relatos de experiências bem-sucedidas de agricultores, pesquisadores e organizações ligadas a meio ambiente, agricultura sustentável e ecologia. Ao todo serão apresentadas 32 vivências, provenientes de diversos países.

Do Brasil, há representantes de instituições como Embrapa, Instituto Federal do Sudeste, Universidade do Vale do Rio Verde, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Crescente Fértil e Emater-Rio, entre outras. De fora do País, há membros de organizações do Chile, da Argentina, da China, da Índia e de Togo.

A transição agroecológica na agricultura familiar é um dos temas que será abordado na apresentação de relatos, com a experiência da SerrAcima Associação de Cultura e Educação Ambiental. Criada em 1999, a organização tem uma longa trajetória junto a agricultores familiares de Cunha, no Vale do Paraíba, em São Paulo, região em que predomina a agricultura convencional. Para estimular os agricultores familiares a migrarem para um modelo mais sustentável, a instituição implementou diversos projetos focados na agroecologia e na conservação ambiental – como proteção de nascentes, recuperação da Mata Atlântica e eliminação da dependência de insumos químicos. “Trabalhar com agroecologia ainda é muito desafiador, considerando a necessidade de dar continuidade às ações a longo prazo”, escrevem as autoras Marina Valadão e Alketa Bestaku. “O grande desafio é levar as experiências para o debate político e constribuir para a construção de um mundo mais justo, solidário e sustentável”, pontuam.

Outra experiência que será apresentada aborda a plantação de lúpulo em região montanhosa, com vistas à produção de cerveja artesanal. A cultura, que tradicionalmente é cultivada mais ao sul do País, em regiões planas e clima temperado, foi trazida para o distrito de Amparo, em Nova Friburgo, onde 12 variedades foram plantadas para avaliação de manejo, produção, colheita e secagem das flores usadas nas cervejas. Os testes foram realizados em parceria pela Universidade Federal do Espírito Santo e pela Universidade Federal de Viçosa, que analisaram os níveis dos componentes químicos e os compararam com os parâmetros internacionais de cada variedade do ingrediente. Segundo os autores, “a produção inicial, o manejo das sementes, o controle de pesticidas, a fertilização, o tratamento pós-colheita e o armazenamento foram satisfatórios nos dois primeiros anos de cultivo, mas ainda é preciso estudar melhor as condições climáticas da região e a necessidade de melhorar a performance da cultura”.

A Associação Trilha Transmantiqueira é outra que apresentará um relato no Workshop. Iniciado no fim de 2017, o movimento organizou um conjunto de 19 trilhas que, juntas, perfazem cerca de mil quilômetros na Serra da Mantiqueira, cortando 34 municípios de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. O projeto consistiu na educação ambiental, com a apresentação de diversos seminários. “Trata-se de um modelo para a conservação e planejamento do turismo montanhoso e para o desenvolvimento de comunidades tradicionais, evitando que estas sejam esvaziadas pela ausência de oportunidades e empregos”, dizem os autores do relato. De acordo com a instituição, a implementação da trilha transmantiqueira contribuirá para a conservação ambiental e para a integração entre homem e natureza, ao mesmo tempo em que ordenará o turismo sustentável na região.

Outro exemplo de experiência ecológica sustentável que será apresentada é o projeto Conexão Mata Atlântica, da Fundação Florestal e da Secretaria de Meio Ambiente de São Paulo. Seu objetivo é recuperar e preservar serviços ecossistêmicos associados à biodiversidade e ao clima em zonas prioritárias do corredor sudeste da Mata Atlântica. Para isso, utiliza uma abordagem de manejo florestal sustentável, promovendo a manutenção e captura de estoques de carbono relacionados ao uso da terra, favorecendo e incentivando a silvicultura de espécies nativas e o incremento da biodiversidade. Para tanto, o projeto incentiva o pagamento de serviços ambientais, o apoio a cadeias de valor sustentável e a certificação da produção agropecuária e florestal para produtores rurais e proprietários de imóveis em áreas de proteção ambiental.

Preservação ambiental também é foco de experiências externas

A preocupação com o meio ambiente é evidente nos relatos internacionais aprovados para apresentação no Mountains 2018. Um exemplo é o pesquisador Farhet Shaheen, da Universidade de Ciências Agrícolas e Tecnologia de Kashmir, na Índia, que apresentará um relato sobre tecnologias de conservação da água em altas altitudes para combater as mudanças climáticas no noroeste do Himalaia.

Com o intuito de adaptar e minimizar os impactos dessas mudanças sobre as comunidades locais, a região está testando novas técnicas a partir da construção de glaciares artificiais. Trata-se de uma intrincada rede de canais de água e barragens ao longo das encostas superiores do vale onde a comunidade se situa, construída de forma que a água possa ser estocada e gradualmente “congelada”. No fim de março, quando a temperatura começa a aumentar, esses glaciares artificiais passam a derreter, garantindo o abastecimento mesmo nas épocas mais áridas. “Muitas das adaptações às mudanças climáticas se traduzem como adaptação da água. Regiões áridas e semiáridas são as principais a experimentar significativos aumentos de temperatura e redução da precipitação, tornando-se muito importantes a captura e o armazenamento de água para que possa ser usada na produção de alimentos”, escreve Shaheen.

Também sobre o Himalaia, pesquisadores da China mostrarão como a fotografia de natureza está contribuindo para os esforços de conservação na região leste da cadeia montanhosa. Sobre a Patagônia, por outro lado, um grupo da Argentina falará como o Parque Nacional Los Glaciares, em El Chaltén, tem feito para lidar com o impacto dos visitantes e gerenciar os resíduos deixados no local. Do Chile, haverá um relato sobre como algumas plantas específicas dos Andes tornaram-se uma inspiração para a implantação de hotspots de microbiodiversidade.

Workshop discutirá experiências e desafios para políticas públicas sustentáveis

Além da programação dos relatos de experiência, o III Workshop sobre Desenvolvimento Sustentável em Ambientes de Montanha trará mesas-redondas e painéis com o objetivo de debater iniciativas que visam à gestão sustentável dos ambientes montanhosos, envolvendo os diversos atores que atuam nesses espaços. “Como o Brasil ainda não tem políticas públicas específicas para as montanhas e o desconhecimento em torno desse tema é muito grande, idealizamos essa atividade como uma forma de discutir a temática com vários segmentos da sociedade, como ONGs, instituições de ensino e pesquisa, governos locais, regionais e federais, empreendedores, agricultores e montanhistas, entre outros”, conta a pesquisadora Adriana Aquino, da Embrapa Agrobiologia.

“Para os debates, estamos trazendo especialistas do Brasil e também de Portugal, Escócia, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Itália, Peru, Guatemala, Argentina, Equador e Chile”, antecipa Aquino. Outra atração são as excursões técnicas relacionadas à conservação ambiental na região serrana do Rio de Janeiro, cujo objetivo é mostrar como é possível valorizar a paisagem e a geração de renda de forma sustentável, a partir da integração harmônica das comunidades com os espaços onde vivem. Ao todo serão oito excursões, no dia 12, divididas nas seguintes temáticas: estratégias agroecológicas, agricultura familiar, sistemas agroflorestais e fruticultura orgânica, releitura da tradição, produção animal e agregação de valor, uso sustentável e serviços ecossistêmicos, preservação ambiental e turismo ecológico, e, por fim, gestão de áreas de risco ambiental em espaços urbanos montanhosos.

Sobre o Mountains

O Mountains está em sua segunda edição – a primeira foi em 2016, em Bragança, Portugal – e envolve ainda a II Conferência Internacional sobre Pesquisa para o Desenvolvimento Sustentável em Regiões de Montanhas, que será realizada de 12 a 14 de dezembro, com simpósios ligados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU (ODS). Ao todo serão 25 simpósios, sob a coordenação de representantes de 13 países: Brasil, Chile, Índia, China, Austrália, Peru, Equador, Paquistão, Portugal, Suíça, Argentina, Alemanha e África do Sul.

 

Foram selecionados 211 resumos para integrarem a programação desses simpósios, de autores provenientes de 29 países, de todos os continentes. O Brasil é o campeão de resumos aprovados, com 112, seguido por China (22), Índia e Chile (10 cada), Argenina (8) e Portugal (4). “Palestrantes conceituados apresentarão os resultados de pesquisa em regiões montanhosas, com um olhar para a conexão entre ciência e políticas públicas, trazendo subsídios e estratégias para que a pesquisa possa contribuir e motivar a gestão integrada e sustentável”, aponta a pesquisadora Rachel Prado, da Embrapa Solos.

As Unidades da Embrapa no Rio de Janeiro (Agrobiologia, Solos e Agroindústria de Alimentos) participam da organização do evento, além de outras instituições do Brasil, Portugal e Escócia: Centro de Investigação de Montanha, Instituto Politécnico de Bragança, Universidade Federal do Ceará, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Crescente Fértil, Unesco, Mountain Partnership e University of Highlands and Islands. O Mountains 2018 também está sendo promovido como parte das comemorações dos 200 anos do município de Nova Friburgo.

 “Nossa grande expectativa é ampliar a discussão sobre os ambientes de montanha em todo o mundo, estimulando a articulação e a formação das redes de pesquisa nesses ambientes nos diversos níveis”, diz o pesquisador Mauro Pinto, da Embrapa Agroindústria de Alimentos. “Particularmente no Brasil, espera-se incentivar o debate dos setores público e privado e da sociedade civil para a elaboração da política nacional de desenvolvimento sustentável nos ambientes de montanha”, finaliza.

 

Serviço

Mountains 2018

III Workshop sobre Desenvolvimento Sustentável em Ambientes de Montanha – 10 a 12 de dezembro

Excursões técnicas – 12 de dezembro

II Conferência Internacional sobre Pesquisa para o Desenvolvimento Sustentável em Regiões de Montanha – 12 a 14 de dezembro

Nova Friburgo/RJ

Informações: http://www.mountainsbr.com/PT/

 

Texto:
Liliane Bello (MTb 01799/GO)
Jornalista 
Embrapa


Postado: 27/11/2018