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Ambientes de montanhas precisam se preparar e se adaptar às mudanças climáticas

Após as fortes chuvas que atingiram o município de Nova Friburgo em janeiro de 2011, culminando em uma das maiores tragédias ambientais do Brasil, o mapeamento e a gestão de riscos tornaram-se ferramentas cada vez mais importantes para antever situações e prevenir novos desastres. O tema foi abordado durante mesa-redonda realizada nesta terça-feira no III Workshop sobre Desenvolvimento Sustentável em Ambientes de Montanha, durante o Mountains 2018. “Temos trabalhado com pesquisas fundamentais para entender como se dão os movimentos de massa, com pesquisa aplicada, para transferir o conhecimento às comunidades locais, e com extensão, buscando a integração entre a Universidade e as comunidades em risco”, informa o professor Leonardo Freitas, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Segundo ele, há uma propensão de ocorrer desastres na região serrana do Rio de Janeiro – e em toda a Serra do Mar –, especialmente devido às condições de clima e relevo locais, com encostas muito íngremes. “Dados da estação meteorológica de Resende apontam que de 1937 a 2000 o volume de chuva permanece mais ou menos o mesmo, mas em muito menos dias. Ou seja, os eventos de chuva de até 10 milímetros permanecem constantes; os eventos intermediários, com chuvas de 10 a 50 milímetros, diminuíram; e os eventos de chuvas extremas, com mais de 50 milímetros estão aumentando. Isso mostra que temos uma mudança climática em andamento, com mais frequência de chuvas extremas, o que reflete a maior possibilidade de desastres”, argumenta.

O professor cita que está sendo feito um atlas de gestão de riscos de Nova Friburgo e que diversos esforços estão em andamento para fazer o monitoramento desses riscos e desenvolver ações conjuntas junto às comunidades afetadas. Entre essas ações, ele destaca a atuação em Córrego D’Antas, com a discussão do Plano Diretor e proposta de zoneamento conjunta com a comunidade; o licenciamento do centro cultural, que também funciona como sede da associação de moradores; e a criação da Rede para Gestão de Risco de Córrego D’Antas.

O geógrafo Pedro Higgens, assessor técnico da Secretaria de Meio Ambiente de Nova Friburgo, também citou que as características de relevo e latitude do município serrano faz com que ele tenha uma dinâmica climática bem específica. “Temos 66% do território de Nova Friburgo acima de mil metros de altitude, e 48% apresenta mais de 25 graus de inclinação. A cidade, de porte médio, foi se estruturando no meio do Vale, e isso garante que 44% do território ainda tenha Mata Atlântica bem preservada”, cita.

Segundo Pedro, a preocupação com a possibilidade de um desastre natural já existia antes de 2011, mas não havia uma base institucionalizada para gestão de riscos. Após o desastre, foi promulgada a lei 12.608, que instituiu programas para monitoramento de risco no Brasil, a partir de uma estratégia nacional de gestão integrada de riscos em desastres naturais (Gides). “Hoje vemos que há mais preparo, com a melhoria de redes de radares, instalação de pluviômetros em áreas de risco e equipamentos de alerta para as comunidades”, destaca. “Nova Friburgo faz parte do projeto-piloto do Gides e estamos atuando principalmente no eixo de mapeamento de perigo e risco a movimentos gravitacionais de massa”, informa.

Experiência nos Andes

A pesquisadora Sarah-Lan Mathez-Stiefel, do Centre for Development and Environment (CDE) e do World Agroforestry Centre (ICRAF), no Peru, fechou a mesa-redonda, falando sobre as experiências nos Andes e a pesquisa transdisciplinar para adaptação às mudanças climáticas na região. Segundo ela, os Andes peruanos apresentam grande vulnerabilidade e vêm sofrendo com o aumento das temperaturas, o aumento do degelo dos glaciares e, paralelamente, com a grande pobreza, diversidade e dependência de recursos naturais das comunidades ali inseridas. “É um conjunto de fatores que aumenta os desafios de encarar as mudanças climáticas”, traduz.

Segundo ela, o trabalho desenvolvido na região perpassa pela geração de conhecimentos complementares: o conhecimento dos sistemas ambientais e sociais, bem como de suas dinâmicas e transformações; o conhecimento de alvo, ou seja, da visão e do patamar que se deseja chegar como sociedade e como a ciência pode contribuir para isso; e o conhecimento de transformação, que estuda os processos de mudança e quais ferramentas devem ser usadas para lidar com elas. “Por um lado precisamos de uma ciência que identifica os problemas e as soluções independentemente das fronteiras disciplinares e que reconhece a complexidade dos sistemas socioambientais andinos. Por outro, precisamos de uma ciência que responda a problemas da sociedade e que inclua os conhecimentos de atores não científicos na pesquisa, por meio de um processo participativo”, ressalta.

Texto: Liliane Bello (MTB 01799/GO)
Embrapa Agrobiologia


Postado: 14/12/2018